A Aliança Francesa Vale do Paraíba convida para a abertura da Exposição “A Comédia Humana” do artista plástico Alex Carrari.
Acesso Livre: Reservas – (12) 98189-0032.
• Sábados: das 9h às 12h.

A COMÉDIA HUMANA
A série “A Comédia Humana” é uma investigação sobre a condição humana a partir da introspecção e da solitude, tendo como figura central o palhaço — esse personagem paradoxal que habita a fronteira entre o riso e a tragédia, entre a performance pública e a vulnerabilidade privada.
Ao retirá-lo de sua função de distração, procuro deslocar também o olhar de quem o observa. O palco deixa de ser o lugar do espetáculo alheio e se transforma em uma espécie de camarim da alma: o lugar onde as máscaras, literais ou simbólicas, são finalmente deixadas de lado.
A escolha desse personagem não é casual. Para além das roupas e da maquiagem — às vezes presentes apenas como vestígio — cada um deles se torna um espelho. Já não estamos diante de alguém que representa para nós. Somos nós que nos vemos representados nele.
Isoladas de uma narrativa reconhecível.
Mesmo quando há paisagens ou cenários, são espaços suspensos, quase fora do mundo. Seus olhares, muitas vezes pousados em algum ponto indefinido, não procuram a aprovação do público. Estão voltados para dentro, mergulhados naquela busca silenciosa por respostas que atravessa toda a existência.
A matéria da pintura participa desse estado. A espessura das tintas, as cores e as marcas da superfície dão corpo ao silêncio. O que poderia ser apenas uma imagem ganha peso, presença, quase uma fisicalidade.
Mas esses personagens não estão necessariamente sozinhos. Um animal, uma caixa de música, balões…aparecem como companhias discretas, que funcionam como ecos emocionais, âncoras de afeto. No caso dos animais, são encontros entre duas solidões que, sem precisar de palavras, se reconhecem e se tocam.
Por isso, A Comédia Humana não é uma série sobre tristeza.
É sobre aquilo que chamo de melancolia ativa: uma solidão que não é abandono, mas recolhimento; não é passividade, mas uma forma de atenção. Meus palhaços não são vítimas da solidão. São, antes, guardiões de um espaço interior — um lugar de silêncio, contemplação e busca por aquilo que há de mais fundamental na existência.
Ao subverter a figura do riso, procuro lembrar que talvez exista, no avesso de toda performance social, uma necessidade que frequentemente esquecemos: a necessidade de silêncio, de beleza e de encontro com aquilo que nos constitui quando ninguém está olhando.
O ARTISTA
Alex Carrari é artista visual e escritor, formado em Teologia. Desde cedo, sua relação com a arte foi atravessada pela leitura dos textos bíblicos, que permanecem como uma das fontes de construção de seus personagens e de sua visão de mundo. Mais tarde, sua formação teológica e o contato com a arte paleocristã e bizantina aproximaram-no da mística medieval, especialmente da obra de São João da Cruz.
Estudou pintura com o professor George Gütlich, na Fundação Cultural, e participou de exposições em espaços como Banco Mercantil, Galeria Miriam Bdaró, Livraria Literacia, Galeria Mirian Badaró, De Etser Atelier, e Passo das Artes, entre outros e salões de arte.
Entre os artistas que mais o influenciam estão Caravaggio, El Greco, Van Gogh, Soutine, Alberto Giacometti e os expressionistas Ernst Kirchner, Oskar Kokoschka e Georges Rouault, não apenas pela linguagem, mas pela capacidade de fazer da pintura um lugar de tensão, silêncio e existência. Sua pintura encontra no expressionismo um de seus principais caminhos, sobretudo pela possibilidade de fazer da forma não uma descrição do mundo, mas uma manifestação daquilo que nele se passa.
Na literatura, Dostoiévski ocupa um lugar central, ao lado de Kafka, Albert Camus e outros autores que investigam o homem diante do abismo, da liberdade, da culpa e da própria existência. Na filosofia, o existencialismo exerceu forte influência sobre a construção de seus personagens e sobre sua maneira de compreender a condição humana. Nesse território de encontro entre teologia e existência, o pensamento de Paul Tillich ocupa também um lugar importante.
Sua poética nasce, assim, do encontro entre arte, literatura, espiritualidade, filosofia, observação profunda e estudo do ser humano. Interessa-lhe menos descrever o mundo do que revelar aquilo que o mundo provoca no sujeito — suas fissuras, seus silêncios, seus conflitos e suas contradições.
Por isso, sua pintura não procura apenas olhar para o mundo, mas olhar através dele. O mundo, em sua obra, interessa menos como janela do que como espelho: um lugar onde o homem se reconhece, se confronta e, às vezes, encontra diante de si aquilo que preferiria não ver.
